Bartolomeu de Gusmão
A sua prática nasce de um ritual diário em que escrita e pintura se entrelaçam como formas de organizar o pensamento e de abrir caminho à descoberta.
Movido pelo desejo de captar a essência sensorial dos elementos naturais, interessa-lhe menos a representação literal das coisas do que a energia que delas emana: a rochosidade da rocha, a madeiridade da madeira, a presença instável da água, do deserto ou da floresta.
No ateliê, a escrita funciona como gesto de clarificação, enquanto a pintura se constrói como um processo de escuta, intuição e surpresa. Mais do que controlar o resultado, Bartolomeu cria condições para que a técnica o surpreenda, acolhendo o erro, o acaso e as camadas imprevistas como matéria essencial da imagem.
Formalmente, o seu trabalho procura uma simbiose entre figura e fundo, onde a presença humana se camufla na paisagem e estabelece com ela uma espécie de “namoro”, em vez de uma relação de imposição.
Figuras parcialmente dissolvidas, fundos que invadem corpos, superfícies sobrepostas e marcas fantasma aproximam a pintura da ideia de palimpsesto: uma sucessão de gestos, acidentes e revelações. Cruzando referências filosóficas, espirituais e ecológicas, a sua obra pensa a relação entre humano e natureza não como oposição, mas como continuidade.
Esta camuflagem torna-se, assim, a tradução pictórica de uma ética ecológica: compreender que “a essência do humano é ser uma maneira de ser natureza”.